Por Mario Sergio*, consultor técnico.
Muito já falamos aqui sobre treinos, maratonas, histórias de superação e, claro, de todos os benefícios que a prática da corrida traz. Desta vez, gostaria de abordar um tema e, ao mesmo tempo, propor uma mudança, sugerir um novo olhar, que percebo ser necessário e importante para a maioria dos praticantes de corrida.
Correr é muito bom e, na maior parte das vezes, para a maior parte dos corredores, traz um prazer que quem já o alcançou vai identificar. Os corredores sabem bem do que estou falando: uma sensação de alegria, efeito químico (endorfinas) gerado pelo exercício realizado a uma determinada frequência cardíaca, potencializado pelo efeito psicológico, pelo fato da pessoa sentir que está se cuidando, entrando em forma física, perdendo peso, etc. Tudo isso é muito bom.
No Brasil, a cada ano, milhares de pessoas se iniciam na prática da corrida. Muitos deles, eu sei, começaram a pensar em correr lendo as páginas dessa revista... Se tantos correm e se dão bem, por que não eu? E, iniciados na corrida, ao passar a sentir os benefícios, vão sendo seduzidos por isso. É quase como um vício. Se me senti bem correndo, quero sentir essa sensação novamente.
Entretanto, há corredores que, parecendo se esquecer desses benefícios, passam a ter foco apenas na questão da performance.
O melhorar a qualquer custo, o ser melhor que os outros doa a quem doer (o pior é sempre acaba doendo mais nele próprio), essa mudança de foco do prazer para a performance, pode acabar minando para sempre os aspectos bons que a corrida traz. Ou seja: pode mesmo colocar em risco o futuro do corredor, diminuir a sua vida útil na atividade física, e até tirar a força que a corrida dá para cada um.
Será que esses corredores estão mesmo preparados para isso? Como lidar com o risco de ficar sem correr? Será que a vida ficaria melhor? Vale a pena se arriscar tanto?
Sei que para aqueles que estão em patamares bem competitivos, esse tema possa parecer um absurdo, já que, afinal, “no pain, no gain”. Mas quem realmente se encontra neste nível? Com certeza, muito poucos.
Ter um objetivo e alcancá-lo é algo que sempre defendi e que, juntamente com a minha equipe técnica, vimos fazendo nesses anos todos, ajudando as pessoas a alcançarem seus objetivos. Mas, e depois dos objetivos alcançados? Quando a busca por melhores perfomances pode começar colocar tudo em risco? Creio que há um momento em que se deve pensar um pouco mais longe. Deixar de lado o momento e avançar para o futuro. Onde quero estar daqui cinco, dez, vinte anos? Quero continuar a correr e a sentir esse prazer? O que devo fazer, ou mudar, a fim de ter mais garantias para conseguir isso?
A alegria de completar uma maratona é uma das sensações mais bonitas que já senti; quando melhoramos uma marca, sem dúvida, é muito bom, sentimo-nos fortes. Mas pensar que podemos correr por anos a fio sem lesões sérias, sentir aquela sensação boa de percorrer quilômetros, às vezes em novas rotas, em novas cidades, e aproveitar a energia que a corrida libera, isso é muito bom, não é? Poder conviver com outros corredores, sentir o “gás” que ela fornece para tocar a vida, pensar melhor, trabalhar melhor, conviver melhor, ou seja, estar mais equilibrado é sempre muito bom. Na minha avaliação, a resposta é sim. Se algo me dá prazer, quero continuar sentindo essa sensação. Admiro os corredores que há anos estão treinando para isso.
Nesses anos, já vi muitos corredores irem com muita vontade e só focarem na questão do tempo – esquecendo-se de sentir essa alegria. Vale lembrar que, ao trabalhar sempre no limite, o seu corpo passa a sentir as conseqüências.
O aparecimento de lesões - às vezes tão sérias que se tornam crônicas, sem possibilidade de cura - tem sido muito comum. Nessa hora, é necessário parar com os treinos, ou correr com limitações. Infelizmente, muitos corredores já sentiram isso e quando chegam aí, é tarde demais.
Não quero defender aqui a na existência dos objetivos de melhorar, de treinar para conquistar uma marca melhor, de evoluir. Mas, acho que todo corredor deveria fazer um exercício e pensar onde e como ele vai querer estar no futuro, e se é correndo.
O que realmente está em primeiro lugar? Como eu ficaria se tivesse que parar com a corrida, já que ela equilibra o corpo e a mente?
Se a resposta é continuar a correr para se manter equilibrado, então use a corrida principalmente para aproveitar os benefícios que ela traz, se cuide, trate das lesões e dê prioridade ao seu corpo, trate-o bem.Corra provas mas não aprenda a descansar, se poupe.
Ter uma cabeça boa e um corpo saudável deve ser o nosso principal objetivo para prolongar ao máximo esse prazer que é ser corredor!
Bons treinos!
*Mario Sergio Andrade Silva
Diretor Técnico
Run&Fun Assessoria Esportiva
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